O que acontece quando as crianças testemunham situações de violência doméstica, guerras, assassinatos por gangues ou massacres em escolas? Testemunhar um ato de violência com arma de fogo duplica a probabilidade de que uma criança venha a cometer um ato de violência grave dentro dos próximos dois anos. A chegada da vida adulta traz consigo os aumentos usuais dos riscos de depressão, ansiedade e agressividade. De modo consistente com isso, criminosos violentos têm maior probabilidade, em comparação com os não violentos, de terem testemunhado atos de violência quando crianças.
Isso enquadra-se no panorama geral da adversidade na infância. Um tópico à parte são os efeitos da violência mediática sobre as crianças.
Inúmeros estudos analisaram os efeitos de se assistir à violência na televisão, em filmes, noticiários e videoclipes, tanto da observação quanto da participação em atos de violência em videojogos. Em resumo:
A exposição das crianças a um trecho violento de um programa de televisão ou filme aumenta as probabilidades de agressão logo em seguida. De modo interessante, o efeito é mais pronunciado em raparigas (considerando-se que estas têm, em geral, níveis mais baixos de agressividade). Os efeitos também são mais intensos quando as crianças são mais novas ou quando a violência é mais realista e/ou apresentada de forma heroica. Tal exposição pode fazer com que as crianças se tornem mais tolerantes à agressão. Numa investigação, assistir a videoclipes violentos aumentou a tolerância de raparigas adolescentes à violência nos encontros. A violência é o ponto-chave: a agressividade não é estimulada por conteúdos meramente empolgantes, excitantes ou dececionantes.
Uma grande exposição à violência mediática durante a infância é um fator preditivo de níveis elevados de agressividade em jovens adultos de ambos os sexos (“agressividade” variando entre o comportamento em condições experimentais e a criminalidade violenta). O efeito normalmente permanece após o controlo do tempo total de consumo mediático, maus-tratos ou abandono, nível socioeconómico, níveis de violência na comunidade, escolaridade dos pais, doenças psiquiátricas e QI. Trata-se de uma descoberta confiável de grande magnitude. A ligação entre a exposição à violência mediática e maior agressividade nos adultos é mais forte do que a ligação entre a exposição ao chumbo e QI, ingestão de cálcio e massa óssea, e amianto e cancro da laringe.
Duas observações: (a) não há evidência de que indivíduos catastroficamente violentos (por exemplo, atiradores em série) sejam assim por causa da exposição mediática durante a infância; (b) a exposição não garante, nem remotamente, uma maior agressividade — em vez disso, os efeitos são mais pronunciados em crianças com maior inclinação para a violência. Para essas, a exposição à violência dessensibiliza e normaliza a sua própria agressividade..
Mª do Carmo Ferin Cunha,
Enfermeira



